Para quê serve a leitura?

As funções da leitura

Em   um convite à reflexão que fiz aos leitores do site, lancei a seguinte provocação: afinal, para quê serve a leitura?  As respostas que recebi foram muito interessantes e motivadoras, inclusive uma que questionou porque o texto enviado via newsletter não estava no site. Então, veio a ideia de inserir aqui a reflexão em cima da reflexão que consegui suscitar.

No texto enviado, defendia que, mesmo que não possamos negar que ler clássicos da literatura ou ficção contemporânea implica em um exercício distinto da leitura de jornais, portais de notícia ou tratados científicos, devemos admitir que o ato de ler sempre cumpre funções importantes na formação e desenvolvimento do indivíduo que pretendemos ser. Argumentei que a leitura ajuda a melhorar nossa capacidade de análise dos fatos, assim como o bom uso da linguagem (que gera melhor comunicação entre os indivíduos) e falei de seu potencial de nos trazer conhecimentos que podemos usar na vida prática ou apenas nos deleitar com seu acúmulo.

Também alertei que não acredito que se alcance reais benefícios com qualquer tipo de leitura; que absorver textos de modo passivo, sem filtro crítico, sem questionamento, sem atenção genuína, nos converte em meros repetidores de conceitos que podemos sequer compreender. Mas esse filtro vai se adquirindo também com a leitura. Aliás, uma linda imagem a respeito pode-se se encontrar no conto de Ítalo Calvino – Um general na biblioteca. Recomendo!

Todos sabemos do papel dos meios de comunicação na construção das opiniões predominantes na sociedade, mas pouco se comenta sobre os filtros a que estamos submetidos e que os vendedores de conteúdo (de livros infantis a notícias diárias) nos impõem, restringindo o acesso do leitor a diferentes opções de leitura – salientando que isso não ocorre apenas no moderno mundo das compras no ambiente virtual. As prateleiras da livraria física também passam por filtros determinados por habilidades marketeiras, assim como as manchetes do periódico comprado na banca da esquina (cada vez em menor número, eu sei).

Provoquei também alguma reflexão sobre a necessidade de desconfiarmos um pouco das escolhas induzidas pelo mercado (normalmente hábeis em nos convencer a adquirir não o que precisamos, mas aquilo que lhes garantirá melhores resultados financeiros.

Outras visões

Os retornos que recebi se concentraram mais no aspecto da função da leitura que no das opções (ou falta de) a que estamos sujeitos. Helena Frenzel respondeu através de seu blog, contando da sua voracidade pelas letras, mas destacando sua forma detalhista de mastigar os textos, para deles extrair aprenzidado, informação e silêncio. Ela destaca que uma das possibilidades da leitura é nos permitir ver as coisas através de outros olhares – gosto dessa chance também – e reconhece que tanto é possível acordar como se entorpecer com a leitura. E a liberdade de escolha é toda nossa.

Um colega da área ambiental comentou sobre os efeitos práticos da leitura. Permito-me reproduzir aqui sua fala: “Ler amplia nossos sentidos, todos eles, a partir de qualquer leitura. (…) Observo visitantes de primeira viagem em uma floresta, particularmente crianças ou adultos puramente urbanos. O número de registros entre um visitante que leu sobre as matas e um que tenha pouca leitura sobre elas, é muito diferente. A leitura de textos sobre as matas desperta os sentidos e faz com que o visitante coloque-se em alerta. O visitante que leu, vê mais, ouve mais, fere-se menos (tropeça menos e não coloca a mão onde não deve). Muito simples: um visitante de parque que tenha lido sobre as maravilhas (e perigos) das trilhas da mata atlântica, se não for sênior, não envereda na mata sem um bom guia. Por diversão, pergunte às pessoas como partir um comprimido que venha fendido de fábrica ou em que posição se deve derramar o leite e o suco de caixa sem que fique respingando líquido por todo lado; são poucas as pessoas que sabem o modo mais correto e prático de fazer, e isto está escrito na bula e na caixa do leite, quem não lê não aprende e faz do modo mais complicado. Da leitura de consultório: passei a ler vários exemplares da Revista Contigo (pode rir), mas ela tem uma seção (Contigo Verde) em que artistas e outras “personalidades” manifestam-se sobre o tema sustentabilidade, você encontrará cada pérola, as fotos então são mais didáticas ainda. Ler também (bem) vicia.” Depois seguimos, esse amigo e eu, num papo por e-mail onde também discutimos como há imprecisões técnicas (de todas as áreas) sendo publicadas e que deixam o leitor desatento à mercê de repetir conceitos equivocados.

E quando resolvi avançar nessa discussão, resolvi pesquisar quais respostas  o google nos traz quando perguntamos para quê serve a leitura. Tive gratas surpresas, como esse artigo da revista Tavola Online, de 2011, onde Osvaldo Felix da Silva defende que a função da leitura “além de instruir o leitor e de capacitá-lo a fazer escolhas mais adequadas e mais conscientes, é, sobretudo, a de humanizá-lo.”

Mas também encontrei pérolas como um aluno que precisava entregar uma redação sobre esse tema e como não era um leitor lá muito ávido, não sabia o que dizer e pedia ajuda num grupo do yahoo.

E para concluir o assunto, ou ramificá-lo, termino falando do quanto cada leitura “puxa” outras leituras. Traduzo-me: Acabo de ler um livro chamado Missa Negra (que está em oferta no wallmart, aliás!), de um filósofo chamado John Gray (não confundir com o autor daqueles livros sobre a origem interplanetária de homens e mulheres). No livro ele cita diversos historiadores, o que me fez começar a ler um livro de Hannah Arendt sobre as origens do totalitarismo, mas ele também cita Proust, o que me fez ter vontade de retomar a leitura de um livro que abandonei pela metade há uns 10 anos atrás. E assim vamos engatando uma leitura na outra e formando um tricô de pensamentos que nos preparam para enfrentar os invernos do mundo.


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