Mais livros, menos fármacos desnecessários

Começar as leituras do ano com uma distopia pode não soar como algo muito positivo, mas quando terminei A Parábola do Semeador, de Octavia Butler, pensei nas palavras do escritor Eduardo Agualusa sobre o poder medicinal da literatura. Ele e eu acreditamos na literatura como um tratamento potente para os males do mundo. Se a literatura não é capaz de varrer os males da humanidade, certamente traz conforto, alívio e, quiçá, esperança.

O livro de Octavia foi escolhido para as conversas do primeiro encontro do ano do Clube de Leitura Leia Mulheres Porto Alegre e embora tenha sido publicado originalmente em 1993 é um retrato contundente do presente (e do futuro logo ali). A trama tem as desigualdades sociais potencializadas pelo esgotamento dos recursos naturais e a violência do desespero para sobreviver como cenário onde Lauren Olamina precisa tomar conta de si e daquele com quem se importa. A trama começa quando ela ainda tem uma vida relativamente segura em um bairro murado que não conta com as tecnologias de ponta disponíveis para os ricos e onde cultivar para comer é imperativo. Mas o equilíbrio precário que a comunidade mantinha está com o tempo contado e Lauren terá de se lançar por caminhos incertos como temos visto acontecer com imigrantes e refugiados.

A protagonista da trilogia (que ficou incompleta) de Octavia Butler é uma menina negra, inteligente e determinada, mas não é uma heroína irrepreensível, e aí reside o mais rico da obra. Por conta de uma síndrome que a faz sentir as dores (e também os prazeres) dos outros, ela precisa aprender a dissimular. Não pode se mostrar vulnerável, sob risco de virar presa fácil. A religião do pai, que era pastor, deixa de fazer sentido para ela, mas ela precisa entender seu lugar no mundo e encontrar algum sentido na existência. Lauren quer decifrar o papel de Deus na vida da terra e acaba por conceber uma nova fé, que funciona como alento e fonte de resistência na duríssima jornada que ela é obrigada a enfrentar.

Ao buscar meios de compreender e se adaptar à mudança que marca a existência no universo ela vai construindo em seu diário as bases de uma nova religião – A Semente da Terra.

A escrita de Octavia é primorosa, sem floreios, intensa e contundente como o conteúdo narrado. A leitura poderá (deverá) doer porque te fará olhar pela janela da bolha (todos temos nosso bairro murado e as pessoas que elegemos como nossa comunidade) e ver coisas incandescentes, putrefatas ou em ruínas, mas também te mostrará de um jeito incontestável a força o valor e a beleza de ações / decisões / visões pensadas para além do teu umbigo.

E por isso volto ao Agualusa que fala da ideia de uma “farmácia literária”. Sou favorável a pensarmos em substituir o uso indiscriminado e muitas vezes inflacionado da química como meio de suportar as mazelas do cotidiano (não estou com isso desqualificando a necessidade de real de medicamentos, pelamor!) por literatura que nos dê a mão (e as vezes asas) e permita trilhar os caminhos desafiantes que sempre tivemos em quaisquer sociedades.


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